O post que segue quer oferecer uma pausa entre um projeto e outro, as tantas demandas diárias e nossas lutas contínuas no embate político.  É também despretensioso e experimental, já que este blogue, recém criado, procura o seu melhor formato – contando, para encontrá-lo, com seu comentário, mesmo que breve.

Ao pensar em arquitetura e música somos rapidamente remetidos ao compositor  – e também arquiteto  - Chico Buarque e sua obra-prima “Construção” – ambos prescindem maiores apresentações. E basta puxar um pouco, apenas um pouco pela memória musical para perceber que nas músicas de Chico a cidade está sempre muito presente. Pode ser uma cidade fictícia como a “Cidade ideal” dos Saltimbancos, que se molda aos desejos de cada morador – a do cachorro tem um poste por metro quadrado, enquanto que a da galinha tem as ruas cheias de minhocas. Ou como a cidade de “A Banda”, que aparece sem ser nomeada, servindo de cenário para personagens como a moça feia ou o velho fraco.

Mas é o Rio de Janeiro  a cidade-personagem recorrente nas canções de Chico. Às vezes são menções passageiras, roteiros por onde transitam figuras como o pivete, que dobra a Rua da Carioca, desce a Frei Caneca e se manda para a Tijuca. Ou locais em que se localizam verdadeiras instituições cariocas, como a Escola de Samba Mangueira, situada num “Rio de ladeiras, civilização encruzilhada” em que “cada ribanceira é uma nação” (Estação derradeira). A cidade pode surgir ainda deslocada no tempo, num futuro distante, como a cidade submersa em que escafandristas encontrarão o amor guardado por “Futuros amantes”.

Não fossem suficientes esses belos registros, o Rio figura também como protagonista das canções buarqueanas. Em “Carioca” ele faz um sobrevôo pela zona sul da cidade, anotando o que vê aqui e ali: o samba no Flamengo, o homem da Gávea, as meninas de Copacabana. Em seu último disco Chico “atravessou o túnel” e descreveu os subúrbios cariocas. Penha, Irajá, Encantado, Bangu, localidades pouco cantadas em versos ganharam destaques na bela canção de um dos maiores artistas brasileiros. Seu olhar é o olhar do “estrangeiro” – ou do “alemão”, como diz a gíria de algumas comunidades para os estranhos a ela – mas não é menos apurado por isso. Ao contrário, situado nesta perspectiva, deve ser apreciado e servir como convite para que essas partes da cidade sejam mais bem conhecidas, apreciadas e, sobretudo, atendidas.

Subúrbio

Chico Buarque

Lá não tem brisa
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Olaria
Fala, Acari, Vigário Geral
Fala, Piedade
Casas sem cor
Ruas de pó, cidade
Que não se pinta
Que é sem vaidade

Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Desbanca a outra
A tal que abusa
De ser tão maravilhosa

Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas
Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Pavuna
Fala, Inhaúma
Cordovil, Pilares
Espalha a tua voz
Nos arredores
Carrega a tua cruz
E os teus tambores

Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Fala no pé
Dá uma idéia
Naquela que te sombreia

Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda

Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Encantado, Bangu
Fala, Realengo…

Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Meriti, Nova Iguaçu
Fala, Paciência…

E você, leitora –  você também, leitor: tem alguma relação especial com a música ao trabalhar, ouve algo específico enquanto projeta? Já pensou entre outras conexões entre arquitetura e canções?

One Response to “Cidades e canções – Chico Buarque”

  1. Ana Paula Says:

    Sempre, tem uma quantidade incontável de músicas que celebram as cidades. Mas a que primeiro me veio à mente lendo esse post, talvez pela associação Chico-subúrbio, foi – do próprio chico, claro – Gente Humilde, que sempre me emociona tanto que tranca a minha garganta.

    “São casas simples
    Com cadeiras na calçada
    E na fachada
    Escrito em cima que é um lar
    Pela varanda
    Flores tristes e baldias
    Como a alegria
    Que não tem onde encostar”


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