Um debate maduro
23/08/2010
Nas últimas semanas registrou-se uma intensa e salutar discussão entre arquitetos, que começou virtual e já tomou rumos “além-rede”, bastante concretos. Surgiu como um questionamento, antes até de tornar-se uma denúncia, sobre sites que oferecem serviços de arquitetura de modo, digamos, duvidoso.
Obviamente não se trata de sites de escritórios de arquitetura estabelecidos; muitas vezes nessas páginas não há sequer a identificação de um arquiteto responsável. Há ofertas de projetos a preços abaixo da tabela – o que configura, no mínimo, concorrência desleal – e até projetos prontos para todo tipo de edificação, incluindo aí hospitais, restaurantes e farmácias, por exemplo. Prontos para levar, da mesma maneira que, numa loja de departamentos escolhe-se uma calça tamanho 40 ou uma camisa nº5.
No debate sobre responsabilidades e fiscalização, obviamente foram questionadas as atuações de entidades de classe, sobretudo os Conselhos Regionais. Houve quem lembrasse que a eminente aprovação do CAU deve coibir melhor esse tipo de prática, mas um razoável consenso se fez sobre a necessidade de vigilância constante de toda e qualquer entidade representativa e, em última instância, de cada profissional.
Mas quem recorre a esse serviço precisa saber dos riscos aos quais se sujeita – ou deveria saber. Em que medida a sociedade brasileira – e não a diminuta parcela dela que compõe a classe média alta – tem noção das atribuições de um arquiteto, das particularidades de um projeto? Para Celso Evaristo, diretor do SARJ, as pessoas que buscam o projeto pronto “são as mesmas que diante do sonho de construir suas próprias casas compram diversas revistas e usam, quase sempre, desenhistas e engenheiros que repetem aqueles desenhos, e aprovam os projetos nas prefeituras, tudo por R$ 300,00.” Indo ainda mais fundo na questão, Evaristo defende uma revisão de valores e conceitos: “O que temos que difundir é a cultura da nossa profissão, sua ciência e utilidade social”.
E, numa postura realmente madura, a discussão não poupou a nós próprios arquitetos, questionado em que medida nós arquitetos contribuimos para uma imagem elitista da profissão, se os valores cobrados não estão acima da realidade social brasileira e de que modo a burocracia estatal encarece esse serviço.
Neste debate, numa outra demonstração de evolução, a internet e as novas redes sociais foram entendidas como de fato são: ferramentas, instrumentos que propagam com maior rapidez tanto ações deletérias quanto as reações de denúncia e luta. Dessa discussão uma representação formal foi feita a um dos conselhos, a Campanha pela criação do CAU foi reforçada e, talvez o maior dos ganhos, um debate franco e corajoso foi estabelecido –, e nada contribui mais para o fortalecimento de uma classe.
06/09/2010 at 14:35
Nossa…Irá a padronização industrial atingir a nós arquitetos?
+1
26/08/2010 at 14:49
Nossa…
Irá a padronização industrial atingir a nós arquitetos?