O centenário de nascimento do arquiteto Affonso Eduardo Reidy (Paris, 26/10/1909 – Rio de Janeiro, 10/08/1964) suscitou comemorações e homenagens diversas, e serve de pretexto para muitas reflexões. Sobretudo neste momento ímpar em que a cidade do Rio de Janeiro é foco e objeto de muitas intervenções arquitetônicas que podem alterar-lhe bastante os contornos, as vias e os fluxos.

Para os profissionais da área não há necessidade de qualquer apresentação. Para os leigos uma consulta simples em qualquer mecanismo de buscas na internet retorna, logo na primeira de muitas páginas, entradas em três ou quatro línguas diferentes. Reidy participou, ainda estudante, da elaboração do Plano Diretor da cidade do Rio trabalhando junto ao arquiteto Alfredo Agache, na década de 1930. Em 32 ingressa na carreira pública por concurso, iniciando uma trajetória de 30 anos no setor.  Modernista, integrou a equipe responsável pelo projeto do Ministério da Educação, coordenada por Lucio Costa.

Anos mais tarde, como diretor do Departamento de Urbanismo da Prefeitura do Distrito Federal, coordena o projeto de urbanização do Centro do Rio de Janeiro, que será base para o desenvolvimento posterior do Aterro e Parque do Flamengo. Suas obras mais famosas são, sem dúvida, o Museu de Arte Moderna e o conjunto habitacional conhecido como Pedregulho. Ao mencioná-las rapidamente “liga-se o nome à pessoa”. Eis aqui uma das características deste profissional: a elegante discrição. Talvez por nunca ter procurado ser mais importante que suas obras, a maneira mais rápida de reconhecê-lo seja através delas, apenas.

Hoje, observamos com interesse o debate sobre a legalidade de um projeto como o escolhido para o novo MIS, sobre o qual imperam acusações de que o escritório não teria as credenciais necessárias para participar do concurso. Deparamo-nos com um projeto como o da Cidade da Música, sobre o qual não faltam suspeitas de desvio de recursos públicos, além de severas críticas quanto à adequação de localização naquela área da cidade. Pululam questionamentos sobre as obras previstas para a zona portuária, sobretudo quanto à participação da população da área na avaliação do projeto que lhe atinge diretamente. Diante de obras como a da Vila do Pan, que apesar de não contar cinco anos apresenta afundamentos em alguns pontos, parece que trata-se de outro tempo e espaço, muito distantes, esses em que viveu um arquiteto que marcou profundamente a arquitetura de seu país sendo um funcionário público, lotado na prefeitura de sua cidade. Um servidor, no sentido mais amplo e profundo da palavra. Ainda que se possa questionar seu estilo e escolhas – e foram quase que igualmente questionadas e celebradas – Reidy permanece um exemplo de trajetória profissional pelo apego ao bem público e por dedicar-se a manter-se à serviço da sua cidade, sem fazer dela plataforma para autopromoção.

Outras vozes

24/11/2009

O Sarj comemora sempre que identifica temas próprios da arquitetura e do urbanismo sendo debatidos fora do ambiente estritamente profissional. E parece haver uma saudável tendência de que não-arquitetos emitam opiniões, ofereçam palpites e denúncias sobre questões relevantes para o cotidiano da cidade. Aqui e ali, na internet – em blogues ou sites – ou mesmo nos veículos de comunicação tradicionais, diferentes atores sociais requisitam o direito, ou aproveitam oportunidades para contribuir com ideias sobre a cidade e seus desafios (veja o caso da série Rio na Cabeça, promovida pelo jornal O globo e patrocinada pelo CREA).
No início de novembro o prof. Luiz Antonio Simas publicou em seu blog um post que virou manifesto no qual defendia o botequim – instituição cultural carioca, segundo o autor -, sem esquecer as preocupações com as anunciadas reformas na região do Porto do Rio:

A reforma da Zona Portuária do Rio de Janeiro também está começando a cheirar mal [sinto um futum de bota-abaixo no ar, com o espectro do Pereira Passos circundando a Guanabara]. (…) Eu quero saber o seguinte: O poder público está escutando os moradores da Zona Portuária? A ideia é fazer da Praça Mauá um centro financeiro que mande pro lixo a história fabulosa da região? Que venha a revitalização, mas revitalizar é criar um marco zero de gosto duvidoso, com mais de cinquenta andares, ou recuperar a grandeza da tradição e da memória do cais e de sua gente?

Já o líder comunitário William da Rocinha denunciou a aprovação, a toque de caixa, nos novos Projetos de Estruturação Urbana das Vargens:

Foi aprovado em segunda e última votação o Peu das Vargens, que estabelece parâmetros de construção e de uso do solo naquela importante região do Rio. A votação foi de placar amplo: 40 X 7. (…) Tudo foi feito em uma semana. Sequer houve tempo para entender direito o projeto e o que acontecerá ali após as mudanças. A perspectiva é de uma gigantesca especulação imobiliária, com ganhos milionários para alguns, adensamento populacional e construtivo e nenhuma proteção ambiental. Como desculpa, naturalmente, a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Espera-se que cada vez mais vozes se levantem, e sejam ouvidas, a respeito das radicais mudanças às quais a cidade será submetida nos próximos anos.

Exercitando o olhar

19/11/2009

Olhar para o passado. Essa foi a proposta de um usuário do site de armazenamento de imagens Flickr, Jasonepowell, que iniciou a “brincadeira” e a expandiu, criando um grupo que recebe contribuições de usuários de todo o mundo. Sob o título “Looking to the past” reúnem-se imagens  em que um mesmo local aparece como está hoje e como foi, anos atrás. O exercício lúdico  tem um charme especial para arquitetos porque oferece a possibilidade de observações e reflexões sobre a ação do tempo, a preservação ou o desgaste das edificações, construção e desconstrução.

Para explicar, nada melhor que um exemplo. Escolhemos  uma das fotos  postadas no grupo, de uma biblioteca pública em Littleton, no Colorado, EUA. Veja e imagine possibilidades na nossa cidade.
Sem photoshop se reconstrói a cidade.

Como as fotos do autor  têm os direitos protegidos (têm a marca©) pedimos autorização para publicá-las, mas não obtivemos resposta. Elas podem ser vistas aqui.

Cidades para 2059

17/11/2009

Fernando Luiz Lara*

No mês passado estive em São Paulo para o IV Seminário Projetar organizado pela Ruth Verde Zein no Mackenzie e fiz uma provocação a respeito do ensino e da prática da arquitetura no Brasil. Enquanto avançamos muito na sistematização do conhecimento nos últimos 20 anos graças ao desenvolvimento da pós-graduação, com visíveis impactos no debate sobre arquitetura e urbanismo em geral,  temo que estejamos deixando passar uma oportunidade de ouro.

Digo isto porque é inegável que o papel social da profissão do arquiteto encontra-se diminuído (e continua diminuindo) há várias décadas. Uma reportagem da revista Manchete de 1959 bradava que o Brasil era o país da música, do futebol e da arquitetura. Naquele ano tínhamos acabado de ganhar a copa da Suécia, a Bossa Nova conquistava o mundo e estávamos construindo a cidade do futuro no meio do planalto central.

Cinquenta anos (e quatro copas) depois, nosso futebol e nossa música fazem todo o mundo dançar e são a marca do país no estrangeiro. Mas algo se passou com a arquitetura. De proponentes de um futuro melhor passamos a seguidores de modas e tendências passageiras. Talvez por isso a maioria dos arquitetos brasileiros veja a questão da sustentabilidade como mais uma moda fugaz que serve para vender os mesmos condomínios de luxo agora travestidos de ecologicamente corretos.

Acontece que a sustentabilidade é muito mais do que isso.  Não cabe aqui neste curto artigo me estender sobre a urgência da questão energética (vide apagão da semana passada) ou das mudanças climáticas que fazem com que as chuvas venham cada vez mais concentradas (enquanto escrevo a Baixada Fluminense está  debaixo d’água).

Importa para mim defender a idéia de que isso é problema nosso: dos arquitetos e urbanistas brasileiros.  Por mais que os mestres modernos tenham errado nos desenhos da expansão urbana no século passado, eles têm o mérito de terem chamado para si a responsabilidade.

E nós hoje? Que cidades estamos projetando? Se o próprio termo projetar, que define nossa atuação profissional, significa lançar a frente ou antecipar o futuro, que futuro é esse?

Por isso acho que estamos perdendo uma oportunidade que talvez não volte na nossa geração nem na de nossos filhos. O momento brasileiro em economia, política e avanços sociais tem paralelo com o otimismo dos anos 50. Estamos crescendo de forma mais sustentável, distribuindo um pouco melhor o bolo e prevendo um ciclo de obras públicas com o PAC, Copa  de 2014 e Olimpíadas de 2016 que juntas podem mudar nossas cidades para melhor, muito melhor.

Mas que melhor é esse? Como implementar no espaço a sociedade mais justa que buscamos no discurso e nas planilhas? Qual a morfologia (e consequentemente qual o código de obras) da cidade que queremos? Como conjugar sustentabilidade social com sustentabilidade ambiental no desenho da cidade?  Qual modelo de transporte e qual base energética apoiarão as cidades brasileiras daqui a outros 50 anos?

Por ser obcecado com as enchentes urbanas que provocam na America Latina destruição equivalente ao Katrina de New Orleans todo ano (mais de 1000 mortes e mais de 100.000 desabrigados) a minha pergunta específica para a cidade do futuro é como conjugar densidade com permeabilidade, ambas condições fundamentais para uma cidade sustentável.

Em resumo, se soubermos responder com projetos (e quiçá obras) às perguntas acima teremos dado um grande passo para recuperarmos nosso papel social.

*Fernando Luiz Lara é arquiteto pela UFMG, PhD pela University of Michigan e atleticano de berço. Professor da Universidade do Texas em Austin, escreve regularmente no Parede de Meia enquanto trabalha no Studio Toró.

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A abertura oficial do 33º Ensa acontece hoje, dia 12 de novembro, no auditório do MAC, no Pavilhão da Bienal. Na solenidade haverá homenagens do Sasp e a premiação do arquiteto do ano.

Na sexta-feira, dia 13, começa o Encontro propriamente, às 9h . Serão formados dois Grupos de Trabalho: “Questões sindicais” e “Relações institucionais, política e estratégia”.

Após o almoço, nova divisão, dessa vez GTs vão enfocar os temas  “Política territorial, assistência técnica e habitação” e “Exercício profissional do arquiteto, legislação e valorização profissional”.

À noite está prevista ainda a mesa “O Estado da arte na implantação da lei 11888/08 – assistência técnica para a população de baixa renda”.

No sábado, dia 13, estão previstas duas sessões plenárias: “A implantação do CAU nos estados” e “As relações institucionais, políticas e o planejamento da FNA para 2010”.

O link do site oficial do evento reúne todos os detalhes da programação e a lista de delegados.

Anote

10/11/2009

seminarComeça em São Paulo na quarta-feira, dia 11, o seminário internacional Sustentabilidade e Produção em Escala de Habitação de Interesse Social – Projetando o Futuro. A proposta dos organizadores é discutir o desafio da produção em escala de habitação social com sustentabilidade, além de situar a contribuição dos arquitetos e urbanistas pela qualidade do desenvolvimento territorial urbano e da produção habitacional.

No primeiro dia estão previstos três painéis: “Sustentabilidade no desenvolvimento territorial”, “Sustentabilidade do projeto arquitetônico e urbanístico na produção em escala de his” e “Tecnologia, materiais e sistemas construtivos na produção de his e sustentabilidade. Na quinta-feira acontecem dois painéis: “Sustentabilidade no desenvolvimento e gestão social” e “Plano nacional de habitação de interesse social e a lei federal 11977 – minha casa, minha vida”. Informações completas estão disponíveis no site do evento.

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A 8ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo está sendo realizada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e segue até o dia 6 de dezembro. O tema central desta edição são os “Ecos Urbanos” – os conceitos de Espacialidade, Conectividade, Originalidade e Sustentabilidade, “os quatro pilares que deverão fundamentar as transformações urbanas contemporâneas”. A BIA pretende discutir  as grandes intervenções urbanas decorrentes da realização de megaeventos, como por exemplo, a Copa do Mundo de 2014.

Veja os destaques dos próximos dias:

Dia 10 de novembro – Auditório do MAC
Horário das 16h30 às 19h00 – mesa redonda
Tema: Mobilidade Contemporânea
Palestrantes: Roberto MacFadden,  Fernando Mello Franco, Renato Anelli
Coordenadora: Silvana Zioni

Patrimônio em Debate
Horário das 19h00 às 20h30
“EXPERIÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DE GESTÃO DE CENTROS URBANOS”

Eduardo Carlos Pereira
Coordenador de Patrimônio Histórico da 8ª Bienal Internacional de Arquitetura

Ana Beatriz Galvão – IPHAN SP
“Planos de Ação das Cidades Históricas”.

Maria Helena Mclaren M. Maia – Arquiteta RioArte
“Corredor Cultural, Rio de Janeiro”

Renato Nunes Balbim – IPEA – DF
“Gestão de Reabilitação de Centros Históricos”
Graduado em Geografia, Doutor em Geografia Humana, ambos pela USP, especialista em reestruturação urbana pela Universidade de Paris I – Panthéon-Sorbonne. Diretor de Planejamento Urbano (2007-2008) e Coordenador do Programa de Reabilitação de Áreas Urbanas Centrais

Visite o site do evento para conhecer a programação completa.

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No Rio de Janeiro, começa hoje e segue até sábado, dia 14, a  Feira Internacional da Construção – Construir. Direcionada para empresas, arquitetos, engenheiros e demais profissionais ligados ao setor da construção civil, a 14ª Construir acontece nos pavilhões 3 e 4 do Riocentro e reunirá mais de 300 expositores. Háverá também vários eventos paralelos, como o III Fórum de Habitação de Interesse Social, a Mostra de Casas Populares e o 3º Forum Nacional de Arquitetura, Iluminação e Susentabilidade.  Saiba detalhes no site oficial do evento.

 

Universidade de Daejeon e o Instituto de Arquitetos da Coreia do Sul organizam uma exposição com a recente produção arquitetônica de Minas Gerais. Com curadoria de Fernando Lara e Carlos Teixeira mostra estará sendo exibida em Daejeon, capital da província de Chungcheong Sul, na Coreia do Sul, entre 6 e 15 de novembro.

Participam da exposição:

Arquitetos Associados – Carlos Alberto Maciel, Bruno Santa Cecília, André Prado,  Alexandre Brasil e Paula Zasnicoff.
Horizontes – Marcelo Palhares, Gabriel Veloso e Luis Felipe Farias
Carlos Teixeira
BCMF – Bruno Campos, Silvio Todeschi e Marcelo Fontes
Adriano Matos Correa
Paulo Waisberg e Clarissa Neves
Studio Toró – Fernando Lara
Humberto Hermeto
Fernando Maculan

link da mostra está em coreano; caso você não tenha fluência  o idioma, veja fotos de alguns dos participantes a seguir:

Fig 1 Teixeira
Carlos Teixeira e grupo Armatrux,  Invento para Leonardo (foto C. Teixeira).
Fig 2 Hermeto
Humberto Hermeto, Villa Rizza (foto H.Hermeto).
Fig 3 BCMF
BCMF, Centro Esportivo de Deodoro (foto B.Campos).
Fig 4 Maculan
Fernando Maculan e Rafael Yanni, Beco São Vicente, aglomerado da Serra
Fig 5 Horizontes
Horizontes Arquitetura + Fernando Lara, Espaços residuais públicos na Pedreira Prado Lopes.

Um dos  organizadores  da exposição, o arquiteto Fernando Lara, foi jurado em um concurso de arquitetura em Seoul, em fevereiro deste ano, e a partir de então manteve contatos no país que resultaram no convite para a curadoria.  Autor do blog Parede de meia, professor da  University of Michigan, Lara será um dos próximos articulistas convidados do Blog do Sarj, escrevendo sobre a cidade do futuro. Não perca.