Cidades para 2059

17/11/2009

Fernando Luiz Lara*

No mês passado estive em São Paulo para o IV Seminário Projetar organizado pela Ruth Verde Zein no Mackenzie e fiz uma provocação a respeito do ensino e da prática da arquitetura no Brasil. Enquanto avançamos muito na sistematização do conhecimento nos últimos 20 anos graças ao desenvolvimento da pós-graduação, com visíveis impactos no debate sobre arquitetura e urbanismo em geral,  temo que estejamos deixando passar uma oportunidade de ouro.

Digo isto porque é inegável que o papel social da profissão do arquiteto encontra-se diminuído (e continua diminuindo) há várias décadas. Uma reportagem da revista Manchete de 1959 bradava que o Brasil era o país da música, do futebol e da arquitetura. Naquele ano tínhamos acabado de ganhar a copa da Suécia, a Bossa Nova conquistava o mundo e estávamos construindo a cidade do futuro no meio do planalto central.

Cinquenta anos (e quatro copas) depois, nosso futebol e nossa música fazem todo o mundo dançar e são a marca do país no estrangeiro. Mas algo se passou com a arquitetura. De proponentes de um futuro melhor passamos a seguidores de modas e tendências passageiras. Talvez por isso a maioria dos arquitetos brasileiros veja a questão da sustentabilidade como mais uma moda fugaz que serve para vender os mesmos condomínios de luxo agora travestidos de ecologicamente corretos.

Acontece que a sustentabilidade é muito mais do que isso.  Não cabe aqui neste curto artigo me estender sobre a urgência da questão energética (vide apagão da semana passada) ou das mudanças climáticas que fazem com que as chuvas venham cada vez mais concentradas (enquanto escrevo a Baixada Fluminense está  debaixo d’água).

Importa para mim defender a idéia de que isso é problema nosso: dos arquitetos e urbanistas brasileiros.  Por mais que os mestres modernos tenham errado nos desenhos da expansão urbana no século passado, eles têm o mérito de terem chamado para si a responsabilidade.

E nós hoje? Que cidades estamos projetando? Se o próprio termo projetar, que define nossa atuação profissional, significa lançar a frente ou antecipar o futuro, que futuro é esse?

Por isso acho que estamos perdendo uma oportunidade que talvez não volte na nossa geração nem na de nossos filhos. O momento brasileiro em economia, política e avanços sociais tem paralelo com o otimismo dos anos 50. Estamos crescendo de forma mais sustentável, distribuindo um pouco melhor o bolo e prevendo um ciclo de obras públicas com o PAC, Copa  de 2014 e Olimpíadas de 2016 que juntas podem mudar nossas cidades para melhor, muito melhor.

Mas que melhor é esse? Como implementar no espaço a sociedade mais justa que buscamos no discurso e nas planilhas? Qual a morfologia (e consequentemente qual o código de obras) da cidade que queremos? Como conjugar sustentabilidade social com sustentabilidade ambiental no desenho da cidade?  Qual modelo de transporte e qual base energética apoiarão as cidades brasileiras daqui a outros 50 anos?

Por ser obcecado com as enchentes urbanas que provocam na America Latina destruição equivalente ao Katrina de New Orleans todo ano (mais de 1000 mortes e mais de 100.000 desabrigados) a minha pergunta específica para a cidade do futuro é como conjugar densidade com permeabilidade, ambas condições fundamentais para uma cidade sustentável.

Em resumo, se soubermos responder com projetos (e quiçá obras) às perguntas acima teremos dado um grande passo para recuperarmos nosso papel social.

*Fernando Luiz Lara é arquiteto pela UFMG, PhD pela University of Michigan e atleticano de berço. Professor da Universidade do Texas em Austin, escreve regularmente no Parede de Meia enquanto trabalha no Studio Toró.

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