Já há algum tempo o grafite foi reconhecido como expressão artística, conseguindo até lugar em espaços fechados como galerias e museus. Claro que os que obtêm tal reconhecimento apresentam características específicas, tanto na forma quanto nos locais em que são feitos, sem que se confundam com meros atos de vandalismo.
Pois o artista português Alexandre Farto Vhils ampliou os limites do grafite, criando uma nova forma de intervenção urbana, também candidata à categoria obra arte. Usa variadas ferramentas e trabalha com materiais inusitados como ácidos corrosivos, álcool, produtos de limpeza e ferrugem. Vhils propõe “refletir sobre nossas próprias camadas” no trabalho que ele denominou “Scratching the surface”. Veja alguns resultados e um vídeo que dá uma ideia do processo de ‘confecção’ do trabalho.

As originais ‘peças’ de Vhils demandam manutenção igualmente inovadora, que preserve não apenas a pintura mas  também a própria edificação contra infiltrações. A menos que o artista conte com o tempo como co-autor de sua obra e busque antes o efêmero que o perene.

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Paulo Roberto Brandão Fonseca*

Quando analisamos um projeto ainda na etapa de anteprojeto de apresentação devemos preservar várias coisas, entre elas o direito de observar os erros, para que os autores possam tomar ciência das observações, necessidades e do programa exigido, e possam melhorar seu desenvolvimento.
Nesse sentido, a crítica se torna construtiva na medida em que coloca aos projetistas novas questões. No caso do Museu da Imagem e do Som – MIS a grande dificuldade está no nosso desconhecimento dos conceitos do projeto, de suas intenções e perspectivas para as suas novas funções e criação de um novo lugar.
O bairro escolhido: Copacabana; no terreno da boate Help, que não poderia ter sido melhor para garantir uma frequência a um museu como o da Imagem e do Som. Colabora também para valorizar uma quadra do bairro que necessita de uma maior qualidade ambiental e social – no caso, valorizada pela cultura.
Dos elementos do projeto, é na fachada que encontramos o maior apelo estilístico. As grandes rampas, propostas para “repetir um efeito de calçada de Copacabana”, diferenciam-se do entorno de linhas retas e repetitivas para propor um movimento, uma razão no seu funcionamento. A intenção do Escritório Scofidio + Renfro (Nova Iorque) foi privilegiar a calçada, como se estivéssemos dando sequência à nossa caminhada no calçadão de Copacabana. O acesso principal através de rampas, segundo os sócios novaiorquinos, “é como uma calçada que se eleva através da fachada, como um grande passeio no Museu e no visual de Copacabana.” A interligação vertical, através de elevadores e escadas rolantes, fica em segundo plano.



Situação semelhante encontra-se no George Pompidou, Paris, onde as escadas rolantes se elevam na fachada, nos revelando o visual de Paris. No caso do ”Boubourg”, o conforto do visitante é total, garantido pelas escadas rolantes, pela proteção da cobertura, permitindo-nos apreciar Paris num momento de descanso.
No nosso caso, a primeira rampa tem declividade muito acentuada no projeto de apresentação; interliga o 2º pavimento até o 5º através de sua fachada com uma declividade acima dos 15%, desconfortável para um caminhada tranquila e sem esforço.
Do mesmo modo, essa declividade acentuada que ocupará toda a fachada necessita de vários cuidados: da segurança de um corrimão, de proteção contra a chuva e as águas pluviais… Na verdade, muito diferente de um acesso relaxante como os projetistas pensaram.


Além disso, na sua implantação, o escritório optou por não fazer qualquer concessão aos recuos do terreno, mantendo o alinhamento do quarteirão. Não considerou, por exemplo, que um recuo maior da construção no andar térreo permitiria, inclusive, uma calçada maior e mais espaço para bancos, pessoas, uma maior comunicação com o bairro.
No aspecto volumétrico, o Museu ostenta a altura de um prédio de dez andares, segundo apresentação, completando de forma pouco graciosa a esquina do quarteirão.
Outro ponto interessante no programa do Museu foi a valorização da vista para a praia, através da localização das galerias e restaurante nos pisos acima, além de um terraço panorâmico. Apesar da valorização da vista, o programa não pensou adequadamente a relação com a calçada, como a possibilidade do 2º piso abrigar um restaurante temático, perto do movimento da calçada! Cheia de pessoas de vários países, lugares do Brasil, cheio de vida de Copacabana. Assim, os projetistas do MIS privilegiam os andares superiores, o contato com a paisagem, mas não o contato com a cidade e com a sua gente, no bairro mais diversificado da cidade!
O que queremos dizer é que, apesar de ser um projeto importante e ligado ao MIS, ainda não entendemos seu propósito, suas finalidades de acervo, de público, de perspectivas. Mesmo dentro de uma função institucional falta algo que o torne vivo, mais participativo, dentro das novas características proporcionadas pelo lugar e pela Arquitetura.
Não podemos dizer que só existem erros na proposição volumétrica do Museu. O jogo assimétrico das volumetrias internas permite vazados e varandas na fachada, e nas circulações internas o escritório Scofidio + Renfro propõe interligações através de rampas, criando um espaço interessante de movimento e de circulação natural através da arquitetura, abrindo-se para os vazados e para a luz.
No projeto de apresentação, no entanto, não existe qualquer intenção para uma comunicação através da fachada, sem qualquer referência à imagem, à história, à música! Como também falta a caracterização de um lugar como referência dentro do bairro, a não ser nas rampas. Na implantação, por exemplo, não sentimos qualquer valor do espaço em relação ao aproveitamento paisagístico, à transformação do lugar em relação ao seu conforto ambiental dentro do bairro, da esquina! Nesse sentido, a própria volumetria do MIS poderia ter sido amenizada na sua altura com a redução do estacionamento, evitando o acesso através de automóveis e permitindo a instauração das salas de projeção no subsolo.
Nesse sentido, falta ao MIS ancorar em Copacabana, e através do seu programa tornar-se mais convidativo e carioca. O MIS e nossa própria história de cultura partem de um intenso processo de interação, de aberturas e tensões que nos permitem incorporar ao nosso imaginário a nossa realidade, a nossa identidade e utilidade enquanto cultura.
Nesse sentido, é a nossa cultura que tem que estar vibrante, manifestando-se no espaço, como a sua maior riqueza. O MIS tem a oportunidade de tornar-se mais convidativo, mas não só para os turistas que querem apreciar a paisagem de Copacabana, mas para a cidade que poderá tornar seu rico acervo de história, som imagem mais acessível a todas as pessoas do mundo.

Dentro da história da arquitetura de museus, o MIS se enquadra dentro de exemplos e categorias muito participativas, interativas, pois abriga um espaço de cultura em constante transformação, e dentro de raízes populares de grande riqueza e miscigenação. Enfim, um Brasil cheio de influências, precisando ser entendido e valorizado.
Nesse caso, de antemão, temos um processo de comunicação com a arquitetura e suas possibilidades de multimídia, independente das salas de projeção, ou só do contato com o seu acervo, que pode ser aberto, mostrado, e mais facilmente estudado.
Do mesmo modo, a arquitetura, dentro do seu programa, poderá aprimorar as suas possibilidades, tirar melhor partido dos espaços criados para comunicação com o visitante e o seu acervo, e não só com a paisagem. Melhorar o conforto, tanto do visitante quanto de sua arquitetura, em relação aos parâmetros de visitação, e melhorar a comunicação com o bairro de Copacabana, com sua intensa descontração e pluralidade carioca.
Um novo MIS! Um espaço de excelência para Copacabana!

* Paulo Roberto Brandão Fonseca, arquiteto e urbanista formado pelas Faculdades Integradas Bennett/RJ. Professor, formado pelo Núcleo de Mestrado PROARQ, da UFRJ, em: “Ciências da Arquitetura”, com a tese:” De volta, para o futuro… sobre a Av. Presidente Vargas, e possui Pós graduação na BAUHAUS College – Dessau – Alemanha.

Peu das Vargens

08/01/2010

Reimont*

A Câmara dos Vereadores aprovou o Projeto de Lei que cria o PEU das Vargens. Este projeto visa estruturar urbanisticamente a região que compreende o Recreio dos Bandeirantes, Vargem Grande, Vargem Pequena e Camorim. Uma das questões que mais me inquietam neste projeto é o que tem me preocupado nos muitos encaminhamentos feitos pela Câmara neste ano de 2008: não há discussão com a comunidade que é impactada!

O povo não pode ficar de fora dos debates da cidade e das discussões que o atingem diretamente. A própria legislação estabelece que, para se fazer uma intervenção urbanística, a sociedade deve ser ouvida e chamada ao debate. Audiências públicas deveriam ter sido convocadas e não o foram. A população ficou fora do processo e a Constituição Federal, o Estatuto das Cidades e a Lei Orgânica do Município foram burlados.

Resta-nos agora esperar que o Ministério Público se manifeste contra esta arbitrariedade, que deixou à margem da negociação e do debate aqueles que são os verdadeiros envolvidos: os moradores daquela região. Aproveito o espaço para afirmar que isso tem sido recorrente nas negociações legislativas: aconteceu com o Plano Diretor, com o Projeto do Porto Maravilha, com a Companhia Siderúrgica do Atlântico e com outros projetos. Os Processos Legislativos não podem deixar o povo de fora!

*Reimont é vereador pelo Partido dos Trabalhadores, Presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Municipal/RJ

O ano de 2010 inicia-se com consternação e pesar pelas vidas perdidas em todo o estado do Rio de Janeiro em função das chuvas. O Sarj solidariza-se com todos os envolvidos na tragédia. E por esta razão sente-se no dever de alertar para que, no calor das emoções por ela suscitadas, mantenha-se a serenidade tanto na apuração das responsabilidades quanto nas soluções oferecidas.

O governo do estado apressou-se em acenar com mudanças na lei de uso do solo, medida de validade inquestionável. Entretanto, uma vez que a legislação sobre a utilização do solo é de responsabilidade municipal, espera-se que o governo do estado busque reunir os municípios e coordenar um debate amplo e democrático com as diversas instâncias envolvidas, que preveja, por exemplo, o atendimento à demanda de moradia que uma mudança desse tipo provocará. A autonomia dos municípios não pode ser ameaçada pelos interesses do estado, que devem ser sempre muito claros.

É preciso muita cautela contra bravatas e medidas apressadas. Já há alguns meses vemos o poder público, em diferentes instâncias, atropelando processos democraticamente instituídos sob a alegação da urgência – seja em função da Copa de 2014 ou as Olimpíadas de 2016. Devemos impedir que os lamentáveis acontecimentos da virada do ano sirvam como pretexto para ações que geram dividendos para os governantes e políticos e nenhum benefício real para a população.