Exceto  o grande mestre Niemeyer, é incomum que um arquiteto ganhe destaque na mídia não especializada. No entanto, a revista Trip quebra essa regra em sua edição de fevereiro, dedicando uma de suas capas para João Filgueiras Lima, o Lelé. Do alto de seus 78 anos, Lelé esbanja vitalidade, sabedoria e coerência numa entrevista rica para todos, arquitetos ou não.

Entre as muitas observações sagazes feitas por ele, há uma feliz semelhança com o conceito defendido pelo arquiteto Jorge Figueiredo em texto publicado recentemente aqui no Blogsarj. Nele, Figueiredo questionava o tamanho ideal para uma cidade autossustentada, ainda que isso  pudesse soar utópico. Em sua entrevista, Lelé comunga da mesma preocupação ao afirmar:

Não percam a entrevista, que está disponível no site da revista Trip.

Anúncios

Bom carnaval !

11/02/2010

Sempre respeitando as diferenças, o SARJ deseja a todas e todos um carnaval feliz, quer você seja um folião inveterado ou fuja da folia aos primeiros repiques do pandeiro. De uma forma ou de outra, ninguém fica indiferente à festa, à energia do carnaval, este estado de espírito que assume formas curiosas e específicas em sua vertente carioca.

Já há alguns anos o carnaval de rua vem renascendo na cidade do Rio de Janeiro, transformando a Passarela do Samba em mais um dos muitos caminhos possíveis para que  a alegria e a fantasia desfilem. Entretanto, a Marquês de Sapucaí não perde a majestade, tão pouco o Sambódromo e seu criador: neste ano o arquiteto Oscar Niemeyer foi homenagenado pela tradicionalíssima Banda de Ipanema, além de ser parte do enredo da Beija-flor de Nilópolis.  Nada mais adequado que uma grande festa popular como o carnaval para celebrar o romance entre a cidade e a arquitetura.

Passarela do Samba vista de cima ,  a partir do início do desfile, e  da Praça da Apoteose.

Andréa Albuquerque G. Redondo*

Ela voltou para o Rio de Janeiro após 12 anos. Um pouco mudada. Sofreu intervenções, mas, na essência, é a mesma senhora, esperada por alguns e sedutora para neófitos: a Mais Valia. Não a antiga, nascida no século XIX, mas, a que perdurou no século XX ciclicamente por 50 anos, usada para legalizar obras construídas sem licença que contrariavam as leis urbanísticas da cidade. Finada em 1997, seu retorno foi afastado em 2003 pelo Executivo de forma inédita e com forte justificativa que pode ser lida neste link da Câmara Municipal. . Finalmente fora rompido o círculo vicioso que, ao invés de reprimir, incentivava o desrespeito às normas.

Em 2009, a nova velha Mais Valia trata de dois temas afins. O primeiro acena com a possibilidade de ampliar andares de cobertura previstos em lei, nos prédios a serem construídos no Rio, sob condições, entre as quais cumprir gabaritos e área máxima de construção. Surpreendentemente, caso os índices não sejam obedecidos, deve-se pagar contrapartida ao Município, em dinheiro, para aprovar o projeto, ou seja, as normas vigentes ficam mantidas mas poderão ser desrespeitadas planejada e antecipadamente, desde que se pague. É uma novidade. Não se aplica à Zona Sul.

O segundo trata da permissão para regularizar obras existentes que não ultrapassem o limite da altura máxima prevista no projeto aprovado, mediante contrapartida ao Município, também em espécie, inclusive na Zona Sul.

Há outras novas. Varandas permitidas na forma de bônus poderão ser fechadas: mudam o conceito original e a composição dos edifícios; valores a pagar variam conforme autor, tipo, área e local da obra; parte da Barra da Tijuca recebeu tratamento diverso. Por outro lado, a Mais Valia de antes ao menos observava a proteção do Meio Ambiente e da vizinhança de Bens Tombados, e eventuais prejuízos causados a terceiros – casos em que a legalização poderia ser negada – matérias ignoradas na lei do século XXI.
O texto levanta dúvidas. Acréscimos verticais poderão ser legalizados? Devido às restrições usuais de projeto e ao interesse do construtor em aproveitar ao máximo a área de venda, haverá de fato ampliações sem ônus para o proprietário? É possível obter licenças para construir a mais na Barra, se os índices sempre são utilizados na totalidade? Por que só na Zona Sul não é permitido pagar antecipadamente para aumentar as coberturas? O inexistente direito de construir acima de terraços e telhados continuará a ser negociado?

A recorrência das construções irregulares e as reedições da Mais Valia comprovam que não há temor à fiscalização, multas e embargos. Portanto, trata-se outra vez de solução temporária do problema, e não de efetivo instrumento de controle da cidade formal, mas de arrecadação. Ademais, será acrescentado um andar padrão ao gabarito geral da cidade criando-se espaços para futuras ampliações.

As modificações cosméticas naquela que voltou a valer seduzem e confundem. O pagamento prévio para construir a mais foi instituído: paga-se uma espécie de fiança antes da transgressão, caminho oposto ao das campanhas de observância às leis. Os interessados em pedir os favores da Velha Senhora apresentaram-se até no Dia de São Sebastião, feriado municipal que homenageia o padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro.

*Andréa Albuquerque Garcia Redondo é arquiteta, foi Secretária Municipal de Urbanismo (1996) e Presidente do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (2001-2007).