Coisas nossas

17/03/2010

Cidade da música – Christian de Portzamparc
MIS – Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio
Museu do Amanhã – Santiago Calatrava
Marina da Glória – Julien De Smedt

Assim caminha a arquitetura carioca e brasileira.

O governo do estado convoca hoje o povo para ir às ruas lutar pelo que lhe pertence, os royalties do pré-sal. Se ganhar essa batalha, esperamos que os recursos sejam utilizados em obras relevantes para a cidade, em disputas públicas que dêem oportunidade também para nossos profissionais.

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Na segunda-feira, dia 8 de março, foi celebrado o Dia Internacional da Mulher. Parabéns foram distribuídos juntamente com rosas e sorrisos, um dia quase festivo. O que soa um tanto inadequado se lembrarmos que a data, escolhida oficialmente pela ONU em 1975, remete ao 8 de março de 1857, quando operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque morreram carbonizadas num incêndio, quando protestavam por melhores condições de trabalho.

Não que o luto seja mais adequado, mas a luta, ao invés da festa, parece mais apropriada para honrar a lembrança daquelas operárias. Que mais não seja, porque ainda há muito ser conquistado. Segundo estatísticas, apesar de constituírem metade da população mundial e serem responsáveis por 2/3 das horas trabalhadas, elas recebem apenas 10% da renda produzida no mundo e são donas de um ínfimo 1% das propriedades.

Não bastasse a igualdade denunciada pelos números ou constatada a um olhar um pouco mais atento, há ainda os ataques. A influente e conservadora revista “The economist” publicou em janeiro reportagem de capa perguntando o que significa o fato de as mulheres ocuparem metade dos postos de trabalho. A revista chega à brilhante conclusão que a desigualdade salarial entre homens e mulheres não se dá pelo gênero, mas sim pela maternidade, já que as mulheres que não têm filhos ganham quase o mesmo que os homens. Além da observação óbvia, porém necessária de que “quase” não é “o mesmo”; é preciso perguntar quando a maternidade passou a prescindir da paternidade. Pelo que conclui a revista, as mulheres ganham menos porque decidem, vejam que inadequado, procriar, esse ato exclusivamente feminino e pessoal com o qual os homens ou a sociedade como um todo não têm nenhuma implicação.

No caso da arquitetura lidamos com uma realidade absolutamente incoerente, para dizer o mínimo. Nos bancos das faculdades as mulheres predominam. A proporção se mantém no mercado de trabalho. No entanto essas trabalhadoras não conquistam nem metade da visibilidade que os homens, ao longo de sua carreira. E não é difícil deduzir que esse desequilíbrio manifesta-se também na comparação de salários e condições de trabalho.

Assim, acreditamos que a melhor homenagem que podemos prestar é resgatar o caráter político, reivindicatório e denunciador que a data carrega em sua história para questionar o que estamos fazendo, concretamente, para que a igualdade entre gêneros estabeleça-se de modo que o dia da mulher não seja nem de luto nem de luta, mas apenas de vida e graça, como devem ser todos.

A Lapa na mira

03/03/2010

Boêmia ela sempre foi e manteve-se, mesmo vivendo períodos de decadência e descaso. Há cerca de 10 anos, a Lapa experimenta um novo ciclo de efervescência. Essa história, recentíssima, ainda está por ser escrita (atenção, historiadores da cidade!) e, portanto, carece de dados precisos: quem iniciou o movimento, quem foi o ovo e quem representou a galinha na redescoberta do tradicional bairro carioca. Mas a retomada da Lapa é fato inconteste e positivo para a cidade – em que pesem os problemas subjacentes à grande afluência de público e à ausência do poder público fiscalizando e ordenando o espaço urbano.

O setor imobiliário, que não se importa muito com tais formalidades, já se voltou para a região, primeiro construindo condomínios residenciais a toque de caixa. A promessa de revitalização – como se ela já não fosse um processo em curso – ganha vulto com o projeto de construção de prédios comerciais, como o da Eletrobrás, localizado atrás da Fundição Progresso. Já apelidado de “espigão da Eletrobrás”, o edifício poderá fazer sombra sobre os Arcos da Lapa e alterar  significativamente a histórica paisagem da área. Também estão previstas construções na rua Evaristo da Veiga e na Rua do Senado semelhantes em grandiosidade  e  impactos não totalmente calculados .

Figuras importantes já se manifestaram. O produtor cultural Perfeito Fortuna, responsável pela Fundição Progresso, mostra-se animando e confiante que os novos investimentos trarão melhorias para o bairro que não seriam conquistadas de outro modo. Já a vereadora Andrea Gouvêa Vieira questiona: por que não construir na área do Porto, também meta de revitalização da Prefeitura? A modificação das regras de edificação do Corredor Cultural do Centro do Rio, aprovadas em tempo recorde pela Assembléia do Rio, mereceu críticas intensas – embora esse já se desenhe como o modus operandi da atual administração municipal.

E está instalada a polêmica – que, esperamos, instale-se plenamente, espalhando-se pela cidade. Pois o que acontece na região em questão concerne à cidade como um todo, e porque já estamos todos fartos das mudanças feitas à sorrelfa, sem o devido debate popular. Mesmo às portas do Fórum Urbano Social, que certamente oferecerá oportunidade para analisar questões como essa, temos que agir com  destreza e rapidez semelhantes às dos que, descontentes com o rumo do jogo ou querendo ganhar, e muito, mudam as regras enquanto piscamos, desatentos.

Projeto da rua Evaristo da Veiga - curiosamente, os projetos são apresentados quase sempre sem representações do entorno