Na semana passada inúmeras iniciativas  festejaram as bodas de ouro de Brasília. Um acontecimento memorável, de fato – afinal, não se trata de fato corriqueiro a construção de uma cidade com a função prévia de ser a capital federal.

Porém, como sói acontecer em efemérides como esta, houve muita superficialidade  e “oba oba”. Infelizmente, poucas ações fizeram da data pretexto para eventos realmente significativas – dentre estes poucos destacam-se a mostra “Outros planos: Brasília”, em cartaz no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo; e o livro “O Concurso de Brasília – Sete Projetos para uma capital”, de Milton Braga.

Deveríamos aproveitar a celebração desse projeto audacioso e memorável para revê-lo e preencher lacunas. Pois se a Capital foi planejada, não o foi a transferência de poder. Faltou planejar a saída do (e para) o Rio. Passados 50 anos, a cidade autodenominada maravilhosa deve superar essa perda, de fato, e aprender a se planejar minimamente – seja para enfrentar chuvas imprevisíveis ou megaeventos religiosos programados.

Já Brasília tem suas várias pontas sem planejamento. As cidades que cresceram à sua volta e a comunicação entre elas e a Capital foi pouco ou nada prevista. A cidade cresceu em todos os sentidos, e deve refletir agora sobre como quer desenvolver-se nos próximos cinquenta anos. A visão única sobre a cidade pelo viés político e sempre focada na corrupção não nos deixa ver o que vale a pena na cidade (não que muitos políticos não dêem motivo pra isso. Este ano temos nova oportunidade mudar este quadro). Agora que começa a acumular história – algo valioso para constituir-se como uma cidade – , Brasília tem como desafio repensar sua relação com sua periferia. Afinal, cidades não são ilhas, e definem-se, entre outras coisas, pela interação com seu entorno.

Com esta proposta, felicitamos a cidade: parabéns, Brasília.

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Os estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Regional Leste da Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo – FeNEA e suas respectivas entidades representativas – os Centros e Diretórios Acadêmicos – estão mobilizados diante das atuais condições da sociedade, do ensino, da formação e para o futuro exercício profissional. Organizam-se através de fóruns promovendo debates, críticas e propostas para uma formação cidadã que subverta a lógica contraditória imposta sobre a sociedade.

A FeNEA se identifica como uma instância representativa e critica da questão urbana, que pretende dialogar com a Academia e os profissionais de Arquitetura e Urbanismo. Assim, ao longo do ano de 2009 procurou se aproximar dos debates pela Reforma Urbana e seus princípios, reconhecendo que o ensino e a formação, bem como a atuação profissional, ainda apresentam um caráter conservador. Diante dessa constatação, elaborou o Projeto de Inserção da Reforma Urbana no ensino de Arquitetura e Urbanismo, propondo que o tema seja incluído nos Projetos Pedagógicos através das grades curriculares, de ementas disciplinares e demais conteúdos, na esperança de se transformar o caráter do arquiteto e urbanista.

A Regional Leste organizou seus conselhos de base, os CoREAs, para a promoção de debates e tomada de posicionamentos e deliberações que representassem os anseios dos estudantes. Foram discutidos, entre outros temas, a descaracterização das Universidades através do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) e do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – considerado pelos estudantes uma deturpação, a Federação articulou um boicote contra o ENADE) propondo uma nova alternativa -; engajou-se também no apoio às lutas pelo CAU e a liberdade aos arquitetos e urbanistas e à Lei de Assistência Técnica, com novas possibilidades de atuação profissional. A FeNEA defende a inserção dos Escritórios Modelo de Arquitetura e Urbanismo em seus contextos– questão muito debatida no SeNEMAU 2009, no Rio de Janeiro, que inclusive atuou de forma prática na Vila Residencial do Fundão e na Ocupação Manuel Congo, no centro da cidade.

Nas lutas pela formação profissional e cidadã, a Federação realizou projetos visando a conscientização e a complementação, tais como: o SERES (Seminário Regional de Ensino Superior de Arquitetura e Urbanismo), debatendo especificamente as condições do ensino, suas orientações e ideologias, com o propósito de elaborar propostas e diretrizes para mudanças e melhorias; o Congresso de Iniciação Científica em Arquitetura e Urbanismo (CICAU), incentivando a Iniciação Científica e estimulando os estudantes a apresentar o desenvolvimento e o resultado de suas pesquisas; e o Concurso Nacional de Idéias para a Reforma Urbana, motivando os estudantes a repensar a questão urbana na perspectiva da de uma Reforma.

Para o ano de 2010, com a continuidade de gestões, a Regional Leste pretende desenvolver cada uma de suas pautas, avançando em suas críticas e propostas e inserindo seus debates em abordagens atuais. No campo da educação universitária, pretende fortalecer a Extensão Universitária em Arquitetura e Urbanismo – vertente tão importante para a formação por aproximar os estudantes da realidade social do país –, inserindo o tema em seus Congressos, os CICAU’s, através dos novos Congressos de Extensão Universitária em Arquitetura e Urbanismo (CEAU’s). No campo da gestão e do planejamento urbano, quer dar continuidade à mobilização organizada pela FeNEA, através de suas Regionais, com o objetivo de uma participação ativa e representativa dos estudantes nas Conferências das Cidades, além debater temas como o Programa Minha Casa, Minha Vida, o Plano Nacional de Habitação e a realização dos grandes eventos – Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas –, alertando os estudantes para seus aspectos, contradições e consequências, possivelmente expondo seu posicionamento crítico e autônomo. Cada uma destas questões será trabalhada de forma sintética e prática na XIII edição do EREA Leste, realizada entre 21 e 25 de abril na cidade do Rio de Janeiro, incitando os estudantes a debatê-las e criticá-las, projetando uma sociedade comprometida com o princípio de direito à cidade.

Desta forma, a Regional Leste acredita que o arquiteto e urbanista tem um papel fundamental na construção das cidades, não devendo estar alienado das questões políticas e sociais, mas sim comprometer-se em ser participativo em suas representações e decisões. E a formação acadêmica deve fornecer as condições para esta compreensão, não se limitando a critérios técnicos, aspectos funcionais e formais, ou metodologias integralistas e generalistas, mas debatendo as reais causas de uma construção social especulativa e desigual, enfrentando-a com propostas comprometidas com a justiça social. A formação deve refletir efetivamente o caráter social do arquiteto e urbanista.

Regional Leste – Jurisdição regional da FeNEA, composta pelos estados do RJ, do ES e de MG (exceto triângulo mineiro)

As enchentes

13/04/2010

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos. Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha! Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio. Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações. Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.

Lima Barreto (publicado no jornal Correio da Noite, Rio, 19-01-1915).

UTI

08/04/2010

O temporal que surpreendeu o Rio de Janeiro no início da noite de segunda-feira, dia 5 de abril, suspendeu a circulação na cidade, instalou um feriado forçado no dia seguinte, alterou totalmente a rotina da população. Modificou também a pauta deste blogue, que não poderia falar sobre outro assunto.

Os meios de comunicação reviram arquivos para fazer comparações e cunhar superlativos: choveu mais que o dobro do previsto para mês, a pior chuva em mais de 40 anos. Um esforço honesto de quem precisa fazer o leitor dimensionar o que aconteceu. Para aquele que sofreu transtornos, mas pode, ao fim de algumas ou muitas horas, voltar para casa e acompanhar de lá o desenrolar dos fatos.

Porque há aqueles que não precisam de metáforas, tabelas ou estatísticas para compreender o que houve. Para os desabrigados, para os parentes das mais de cem vítimas computadas até aqui, não interessam quantas piscinas olímpicas equivalem ao volume de água derramado sobre a cidade ou qual recorde a tempestade bateu. Não precisam também ouvir das autoridades declarações que os criminalizam e responsabilizam pela própria tragédia – são o que se pode chamar requinte de crueldade. Houve quem comparasse a fala do governador sobre os moradores de encosta à célebre frase de Maria Antonieta. Será que ele pensa que é escolha entre a vieira Souto e a encosta? Qual a opção ele daria para os moradores? O que não falta na cidade são prédios desocupados a espera de uma boa legislação – já entrando na seara da prefeitura.

É preciso aproveitar o momento para discutir com coragem a ocupação do solo urbano, a densidade populacional da cidade como um todo (e não apenas nas áreas pobres e com construções irregulares), um transporte de massas eficiente e barato e diversas outras questões. Ainda que tenha sido um evento meteorológico acima dos padrões, sabe-se que os padrões estão em mutação: mudanças climáticas estão em curso e chuvas torrenciais não são mais exceções. A população parece disposta, pois se voluntariou durante o temporal – trocando informação via internet, ajudando no trânsito ou mesmo em resgates, na ausência de equipes especializadas. Está, portanto, apta para o trabalho – e espera que os governantes também estejam. Como foi expresso no comentário a um tempo ácido e divertido repetido muitas vezes na internet no dia seguinte ao temporal: “Prefeito do RJ recomenda que população não trabalhe. População do RJ recomenda que prefeito trabalhe.”

A conferir

01/04/2010

A professora e arquiteta Ana Luiza Nobre destacou em seu blog o fato de o jornal O Globo, ao decidir ampliar o espaço para opinião, ter convocado os arquitetos  Luiz Fernando Janot e Sérgio Magalhães para escreverem regularemente. Magalhães foi eleito recentemente presidente do IAB e Janot é professor da UFRJ.

De fato, excelente notícia, sobretudo neste momento em que são tantas as questões urbanísticas em pauta requerendo urgência e análises relevantes. Vale a pena acompanhá-los e também os consequentes debates suscitados por seus textos.