Para quem é, basta?

21/07/2010

Jornais cariocas noticiaram na semana passada a intenção da Riotur de transformar o Terreirão do Samba em espaço de eventos, com bares, lojas e palcos para apresentações durante todo o ano. O local, que fica nas imediações da Passarela do Samba, oferece shows no período carnavalesco, chegando a reunir mais de 15 mil pessoas por dia. A ideia é criar um espaço permanente para o samba, à semelhança do Centro das Tradições Nordestinas, em São Cristóvão.

(Antes, um parêntesis: embora esteja presente no Twitter, no Facebook e mantenha um site, a Riotur não oferece informações sobre a proposta em nenhum destes meios. Deveria ser a própria entidade, e não a imprensa, responsável pela informação primeira a respeito de seus planos – ou qual o sentido de tantos canais e tão pouca informação?)

Voltando para o Terreirão: a motivação soa simpática, sem dúvida. O samba, patrimônio imaterial que é, do Rio de Janeiro e do Brasil, merece a deferência. No entanto, chama a atenção a cara que se quer dar ao projeto. Segundo o jornal ‘O dia’, ”para resgatar o ambiente do Rio Antigo, seis botequins serão construídos em arquitetura neoclássica”. Por que construir ao lado da Passarela do Samba, um dos símbolos do modernismo do mestre Niemeyer, algo com ar de antigo? Caso o presidente da Riotur desconheça, o verdadeiro Rio Antigo sobrevive e padece um ou dois quarteirões atrás do Terreirão, em casas, sobrados e até mesmo igrejas ameaçadas de desabamento por falta de manutenção e fiscalização da prefeitura (do Estado como um todo). Igualmente um patrimônio, só que material, ainda que corroído pelo tempo e negligenciado pelas autoridades.

Por que criar casas antigas fake em uma região da qual elas foram banidas há quase um século para dar lugar à própria Avenida Presidente Vargas? Na área próxima à Marquês de Sapucaí, a maior parte das edificações já não são construções neoclássicas – ecléticas – coloniais. Erguer na área casinhas com “cara de antiga”, além de destoar arquitetonicamente do entorno, soa quase como um deboche frente ao verdadeiro e degradado Rio antigo das imediações, que agoniza mais que o samba.

Porque não construções contemporâneas complementando a obra do mestre Niemeyer e indicando um futuro?

Na mesma matéria, o presidente da Riotur, Antônio Pedro dá pistas desta escolha pelo “antigo” – que pode ser traduzido por pitoresco e caricato. Afirma o dirigente: “não será sofisticado, mas sim organizado, confortável e agradável”. E poderíamos saber por que a preocupação em avisar tão prontamente que não há sofisticação prevista? Então samba tem que, necessariamente, remeter ao passado, ao antigo, não sofisticado, “velho, mas limpinho”? Vai ver é isso mesmo, afinal é o samba, é o Centro da cidade: sofisticação, harmonia arquitetônica e transparência para quê, não é mesmo?

 

Arte do Jornal O Dia

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